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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Entre a Carlos e a Sete, um pedido: Homens negros, amem suas pretas!!!


Estava eu, hoje, chegando na rua Carlos Gomes, na cidade de Salvador, quando de repente passo por duas mulheres NEGRAS, de jeito simples e cheias de criticidade sobre a vida. Foi inevitável não ouvir a conversa entre elas. Uma contava para a outra: "eu perguntei a ele se era racismo ou o quê esse negócio dele namorar apenas mulheres brancas... Pra mim é racismo o cara ficar só com mulheres brancas..." A partir da narrativa da mulher, percebi que a resposta do homem foi bem vazia e sem desconfiança alguma sobre sua situação: "não é racismo não é que gosto mais de namorar mulheres brancas...", enquanto que o questionamento dela tinha no ar, cheiro de porquês e de desconfianças sobre a situação masculina, e sobre a condição de muitas mulheres negras do nosso Brasil. Mesmo sem ela entrar em detalhes, a indignação da mulher me deu uma pista: o homem da narrativa, com certeza, é negro! Ao ouvir esta conversa lembrei do que disse uma professora minha: "os homens negros não foram ensinados a amar as mulheres negras". Tive vontade de dizer isso para elas, mas concluí que não era preciso, pois elas já sabem disso. Quando olhei para trás, elas atravessavam a rua e seguiam para a Avenida Sete, certamente prontas e empoderadas para enfrentar o racismo nosso de cada dia, que tenta nos negar até mesmo o amor. Adoro quando vejo teoria crítica implícita na boca e na vida do povo, que sabe o que sente.



sábado, 12 de setembro de 2015

Conceição


Certo dia, minha mãe me disse:
- Menina, você nasceu pra casar e gerar!

Certo dia, a religião me disse:
- Seu corpo está aí pra negar!

Certo dia, meu irmão mais velho me ordenou:
- Menina, saia daqui! Este não é seu lugar!

Certo dia, eu tive um homem que se apropriou de mim:
- Não vista esta roupa! Não use este batom!
- Você quer se parecer com uma puta?
Certo dia, o pastor me disse do púlpito:

- Sua roupa não é de moça decente, crente!
Certo dia, a igreja me expulsou porque
 “pequei”, “desantifiquei”!

Certo dia, meu pai gritou:
- Preferia te ver morta que assim: grávida!

Queimei!

Todos os dias, o sistema me nega tudo.
E assim, recebo outros talhos.
Mas, mesmo entre olhares tortos,
não me resvalo.

Me ponho, em punho:
sou negra e mãe solteira!

  

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Cãofajeste



Por Glauce Souza
Dedico este texto à Adriana Ichim

Hoje eu estava pensando sobre a grande quantidade de cafajestes que existem no mundo e cheguei à conclusão que corre um grande risco quem se relaciona com este tipo de homem. Por isso, imaginei a seguinte sentença: nossa vida amorosa seria muito mais tranquila se cada cafajeste andasse com uma plaquinha no pescoço, tais aquelas que encontramos nas casas onde há cães perigosos. Para um cafajeste bastaria a seguinte frase: “Cuidado! Cãofajeste”. Assim, tenho certeza que muitas pessoas manteriam mais distância desse tipo de homem.
O título do meu texto não surgiu à toa, pois, há muitas semelhanças entre um cão perigoso e um homem cafajeste. Uma delas é o fato de ambos serem, na maioria das vezes, encantadores (em alguns aspectos) e também perigosos. Assim, por uma vida mais feliz, vale à pena darmos um pouco de atenção a essas semelhanças e entendermos que se alguém se ama de verdade, deve nunca se apaixonar por um cafajeste! Muitas pessoas não irão concordar comigo, afirmarão que se apaixonar por um “cafa” vale muito à pena, apesar das lágrimas. Inclusive, já li até um texto, muito bem escrito, sobre isso. A autora concluía seu texto agradecendo o fato dos cafajestes existirem. Ainda não cheguei a esse nível, e sinceramente, não quero nem chegar. O nível máximo que consigo alcançar é ser flexível a ponto de acreditar que o melhor a fazer, quando conhecemos um “cafa” e nos relacionamos com ele, é estabelecer uma relação idêntica àquela que eles estabelecem conosco. Acione o botão da razão e responda: se um cafajeste nunca se apaixona, porque eu irei me apaixonar por um deles? Em nome de uma vida sem decepções, há muito que fazer, como aproveitar o “cafa” da mesma forma como eles tentam se aproveitar de nós. Se assim desejar, coloque cada coisa em seu lugar, viva o momento e seja feliz. Aliás, o carpe diem é uma das melhores marcas de um cafajeste, se aproprie também do termo! Aproveite o seu corpo disponível, o bom papo, a sua cortesia, aprenda com sua inteligência e simplicidade, usufrua da sua poesia, música, pintura (muitos deles são talentosos), deguste seus pratos maravilhosos e o vinho que certamente irá te oferecer. Faça tudo isso, mas não esqueça que você está diante de um CAFAJESTE. Se fizer diferente, você correrá grandes riscos de sofrimento. Do sexo ao vinho, tudo isso pode ser muito bom.  
Outro dia descobri mais uma característica dos cafajestes de plantão: todos eles desejam se tornar um deus, do sexo. Por armazenar muita cafajestagem em seu DNA, conseguem conquistar, sem muito esforço, vários adoradores. São alternativos, educados e sensíveis. Quem tem coragem de administrar uma empreitada dessas? Deus me livre!!!
Apesar de tudo, tenho medo dos cafajestes, e à medida que posso, mantenho certa distância deles, pois assim como o cão bravo, se você vacilar eles te arrancam um pedaço.

domingo, 27 de abril de 2014

PRONTO, FALEI: MULHER GOSTA É DE DINHEIRO!



Hoje, ao me sentir bem ao comprar, com o meu dinheiro suado, algumas coisas que estava precisando para uso pessoal, pensei: "A insistente frase vinda de um ou uma machista, 'Mulher gosta é de dinheiro', merece, no mínimo, um questionamento (se encaramos de forma inocente a frase) e uma sentença (se considerarmos o contexto em que sempre é mencionada. O questionamento é: E quem não gosta de dinheiro? Já a sentença é bastante pessoal. No meu caso, a frase 'Mulher gosta é de dinheiro' não me contempla totalmente. Sabe por quê? Porque eu gosto de dinheiro, mas do MEU dinheiro!" 

Reflita vc tmb! 

Bejim no ombro para todas as pensadoras contemporâneas!!! 
(Glauce Souza - 26/04/2014)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Rir pode não ser o melhor remédio


Marina Colasanti


Fábulas da Mulher Moderna, assim estava escrito, há algumas semanas, no alto de uma estante promocional estrategicamente posicionada para receber os frequentadores logo `a entrada da livraria Barnes & Noble, na 7º avenida, em Nova Iorque. E eu, mulher moderna que acabava de cruzar o umbral, senti-me convocada e parei para ver o que, da minha espécie, se contava. 

Slave of fashion (escrava da moda) era um dos títulos, assinado por Rebecca Campbell. Good in bed (Boa de cama) era outro, de Jennifer Weiner. E ainda, The accidental virgin ( Virgem acidental), Filthy rich ( Terrivelmente rica), The dictionary of failed relationships, 26 tales of love gone wrong ( Dicionário das relações fracassadas, 26 histórias de amor que não deu certo), I do but I dont’ ( Eu faço mas não faço), The dominant blonde ( A loura dominadora) . A estante, que se pretendia tentadora, oferecia ao todo 36 livros do mesmo teor.

E o que diziam eles ? Autora de destaque na área, Marian Keyes aparecia com vários títulos. No último , Last chance saloon (A última chance), conforme li na contra-capa, conta-se a história de três amigas que, vindas de uma pequena cidade para a metrópole, não conseguem vida amorosa. E será certamente apreciado, dizia ainda a contra-capa, pelas leitoras que se deleitaram com a obra anterior, Sushi for beginners ( Sushi para principiantes) todo ambientado no mundo da moda. A busca infrutifera do amor era tema também da história de uma organizadora de casamentos, que não consegue casar. E um terceiro , que trazia na capa a foto de uma mulher sentada , com a cabeça inteiramente metida dentro de um saco de papel pardo, sugeria já no título -Why girls are weird - explicar porque as mulheres são estrambólicas ou, no mínimo, esquisitas.

Todos prometiam “muita diversão”, eram “engraçados” ou “engraçadíssimos”, as leitoras, que “nunca haviam rido tanto”, iam seguramente “morrer de rir”.

Ninguém nos prometia gargalhadas quando, nas décadas de 70 e 80 , procurávamos nas livrarias os títulos que continham a modernidade do feminino. Não esperávamos que Simone de Beauvoir fosse hilária, nem que Kate Millet , Gloria Steinem ou Shulamith Firestone nos fizessem rolar no tapete de tanto rir. E a sexualidade, vista por Luce Irigaray, certamente não tinha a mesma angulação cômica escolhida por uma Jennifer Weiner. Estávamos, naqueles anos, descobrindo uma nova maneira de ser mulher ou, como disse Simone, estávamos nos fazendo mulheres. 

E a nova maneira de ser mulher era, então, sair daquele mundo lacrado ao qual havíamos estado confinadas, para conquistar o espaço maior do coletivo. Era pensar o feminino em termos sociais. E entrar nas livrarias e buscar a seção “Mulher” equivalia a encontrar um entusiasmante encontro marcado de antropologia, sociologia, história, psicologia. O feminino parecia um continente novo onde tudo ainda estava por descobrir.

Agora nos deleitamos com o diário de Bridget Jones multiplicado em infinitas variantes - havia uma inclusive naquela tal estante, mas atualizada, com diário on line. E trocamos os amplos espaços recém possuidos, pelo limitado espaço do ego. Um ego mais moderno, é verdade, porque aberto `a visitação pública. As seções “Mulher” nem existem mais nas livrarias. Foram substituídas por “Estudos de Gênero”, em que as mulheres aparecem mais vinculadas a homossexualismo do que a qualquer outra coisa. E as mulheres foram transferidas para a seção “Comportamento”, uma vaga mistura de auto-ajuda e aconselhamento amoroso.

A palavra de ordem que era Refletir, foi trocada. A que vigora é Divertir-se. E, se antes refletíamos sobre nossa condição, agora rimos dela.

Estamos achando cômica a busca feminina do amor, como se o amor fosse um resíduo ridiculamente romântico a ser descartado com a modernidade. Sentamos para nos divertir diante de Sex and the city, sem que ecoem em nossos ouvidos as palavras de Octavio Paz:” ...acho que o amor tornou-se uma abstração...A alma tornou-se um departamento do sexo, e o sexo tornou-se um departamento da política. Se a nossa sociedade vai se recuperar, temos que recuperar a idéia de amor (...) essa é a coisa mais importante. Se não encontrarmos isso, a vida será um deserto.”

Rir é muito bom. Rir de si mesmo pode ser extremamente saudável, uma demonstração de senso crítico. E é claro que as mulheres não estão sozinhas nessa grande gargalhada. Ainda em Nova Iorque, fui assistir Grande jornada do dia noite adentro, e a platéia ria. Nessa, que é a peça mais dramática de O’Neill, o público aproveitava qualquer mínima oportunidade para gargalhar. Não é isso o que nos ensinam as sitcom e os programas de auditório pontuados por gargalhadas de encomenda?

Rir, porém, pode ser também uma forma de manter-se fora das situações, evitar o envolvimento. É quando o riso se aproxima do cinismo, e se substitui à ação: se estou rindo estou criticando, e se estou criticando já basta. 

Não vamos rir para sempre, não há maxilar que aguente. Nosso riso atual é provavelmente apenas um pit-stop histórico entre uma reflexão e outra, uma e outra luta crítica em busca de melhoria. Estamos, como estão os jovens na night, em trânsito. Mas ainda assim, certos corações sangram quando comparam uma Claire Bretecher, que com seus Les Frustrés - publicados no Le Nouvel Observateur- nos fazia rir do pensamento das mulheres, a uma Maitena que faz rir repetindo velhos clichês sobre o seu não-pensamento.


Fonte: COLASANTI, Marina. Rir pode não ser o melhor remédio. In: Fragatas para Terras Distantes. Rio de Janeiro: Record 2004. p. 191-194

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Alô machista, me diz aí do que você gosta!!!

Ontem, estava caminhando rapidamente pelo centro da cidade de Jequié quando ouvi sair da boca de um homem a seguinte exortação: "Homem não gosta disso, você sabe disso!" A entonação usada na frase, demonstrava que o autor estava bastante irritado com algo que lhe fizeram. Desconfiei, imediatamente, que o homem estivesse irritado com a sua companheira, para quem direcionou a frase e que caminhava ao seu lado de mãos dadas, ouvindo de forma passiva a declaração do seu macho. A partir daí a minha mente, seguindo a mesma linha do desenho animado O fantástico mundo de Bob, começou a “viajar”. Pensei muito a respeito do que tinha levado aquele homem a fazer tal declaração. Foram estas as minhas desconfianças: será que esta mulher encontrou um amigo de infância que não via há muito tempo e ao cumprimentá-lo com bastante entusiasmo causou um ciúme exacerbado no homem que pensa ser seu dono? A cena foi próxima a uma agência bancária, daí continuei minhas suposições: será que esta mulher resolveu alguma questão bancária que não era para ela resolver? Afinal, quem resolve essas coisas de transações bancárias, juros etc são os homens, somente eles estão aptos para isso. Será que a irritação estava no fato dela ter desobedecido ele ao usar aquela roupa que ele odeia? Será que esta mulher tinha feito alguma declaração e este homem sentiu a sua masculinidade bastante ofendida? Como não posso responder exatamente o que tenha levado esse homem a fazer tal declaração, resolvi continuar minhas suposições, agora respondendo à seguinte pergunta: Afinal, do que não gostam os machões? Os machões não gostam de mulher com roupa curta, até que passa em sua frente uma mulher com aquele shortinho e seus olhos paralisam e suas bocas falam obscenidades. Os machões não gostam de mulher que ingere bebida alcoólica, mas nos bares a primeira coisa que oferecem a uma delas é uma bebida forte para tirá-la do controle e deixá-la mais vulnerável a um lance. Os machões não gostam de mulheres que trabalham fora de casa, mas adoram aquelas com quem tem um “caso”, suas colegas de trabalho. Os machões não gostam de mulheres descoladas, que contam piadas, que se comunicam bem, mas são essas que mais chamam a atenção deles. Os machões não gostam de mulher independente, mas admiram aquelas que têm sua própria casa, seu próprio carro, seu próprio dinheiro. Afinal, isso facilita a aventura. Portanto, quando ouvir um machão dizer que: “homem não gosta disso”, desconfie que é disso mesmo que eles gostam!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Resumo: “Por que nos perguntam se existimos?”



COLASANTI,  Marina. Por que nos perguntam se existimos? In: Fragatas para Terras Distantes. Rio de Janeiro: Record 2004.

Por Glauce Souza Santos


No ano de 1996 em um Seminário intitulado Entre resistir e identificar-se, realizado na Universidade de Illinois, EUA, a escritora Marina Colasanti palestrou a respeito da Escrita Feminina. Por que nos perguntam se existimos? é o título do seu texto proferido na palestra, publicado posteriormente no seu livro de ensaios Fragatas para Terras Distantes, editora Record 2004. 

É a partir de um questionamento insistente feito pela sociedade que Marina Colasanti discorre sobre o tema Escrita Feminina. Para ela, a junção entre as duas afirmações: “Eu sou uma mulher” e “Eu sou uma escritora” parecem produzir uma poderosa reação química, cuja fórmula conduz à pergunta: “Existe uma escrita feminina?”. A autora acredita que a sociedade não está interessada em saber se de fato esta literatura existe, pois, as respostas dadas ao longo dos anos já respondem ao questionamento. 

Segundo a escritora, esta interrogação tem como pano de fundo o objetivo maquiavélico de pôr em dúvida a existência de uma literatura feminina. Mas, a autora não apenas demonstra que há por trás da pergunta um objetivo maquiavélico, como também justifica este objetivo. O poder literário, o poder da palavra e a linguagem individual são fatores ameaçadores à sociedade patriarcal.

Marina Colasanti afirma que ao estudar sobre a existência ou não de uma escrita feminina é possível encontrar um elemento revelador: a afirmação frequentemente repetida de que a pergunta sobre a existência ou não de uma literatura feminina se torna desnecessária quando se trata de escritoras ditas universais.
   
De forma bastante lúcida Colasanti nos leva a observar que, provavelmente por não lidar com a palavra em estado puro e nenhuma forma de expressão ser tão ameaçadora quanto a palavra, em nenhuma outra arte a pergunta relacionada às mulheres é feita de forma tão explícita. 

Em última análise, a autora chega à conclusão de que a pergunta “existe uma literatura feminina” não é relativa à literatura e a melhor resposta dada a ela acontecerá sempre que a tirarmos do seu falso lugar. E por fim, admite que sempre arma sua defesa no enfrentamento dos preconceitos e que sua busca pela essência da escrita se dá numa procura dentro de si, da sua própria e mais profunda essência, que é a essência de mulher. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Rosisca Darcy e o feminismo da diferença




Acabo de ler o texto “As mulheres em movimento: feminizar o mundo” de Rosisca Darcy de Oliveira. Nele, a autora faz uma análise histórica e bastante sincera do movimento feminista, apontando os equívocos que o discurso da luta de igualdade, difundido pelo movimento, gerou.
Segundo Rosisca, a igualdade no feminismo nasceu capenga e resultou em um equívoco revelado no acréscimo dos papéis ditos masculinos à vida da mulher e a realidade imutável da vida masculina. Este feminismo de soma zero, como denomina a autora, abriu caminho à crise de identidade psicossocial da mulher perceptível à medida que as mulheres se afirmam na vida intelectual e profissional.
A autora afirma que as feministas dos anos 70, leitoras de Simone de Beauvoir eram as herdeiras das lutas pela emancipação da mulher do começo do século e estas ecoavam ideais de igualdade no mesmo momento que enfrentavam a perplexidade de falar de dentro do mundo dos homens.
É nesse período que surge uma produção teórica significativa que transforma as demandas de igualdade em uma busca angustiada dos traços da diferença. Segundo Rosisca, é aqui que nasce uma geração exilada do feminino tradicional e ainda estrangeira no mundo dos homens resultando no projeto de “feminizar o mundo”, redefinição de um mal entendido de base.
Rosisca afirma que na trajetória do movimento feminista gerou-se, em duas etapas, uma contestação radical do senso comum. A primeira, quando a contestação visava provar que as mulheres não são inferiores aos homens. A segunda, quando a contestação feminina anuncia que as mulheres não são inferiores aos homens, mas, também não são iguais a eles e que essa diferença contém um potencial enriquecedor de crítica da cultura.
A autora ainda pontua que a igualdade defendida pelas mulheres nos anos 80, não era mais em nome da capacidade de semelhança aos homens, mas, em nome do direito da diferença, o denominado feminismo da diferença que introduz um questionamento mais radical redefinindo o feminino.
Rosisca sugere a presença dos homens no mundo das mulheres a fim de que se possibilite uma simetria de reconstrução do masculino, pois para ela a verdadeira igualdade é a aceitação da diferença sem hierarquia.
Portanto, a autora finaliza o texto afirmando que um diálogo amigo entre homem e mulher é a mais desvairada das utopias. Mas, que qualquer que seja o destino da relação entre sexos, o movimento feminista guardará o mérito por ter denunciado a insaciável intolerância a alteridade e levado as mulheres a ver o nada em tudo que não as representasse. Também terá tornado o Feminino presente e visível como corpo, história, cultura, crise e projeto.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Raça, gênero e o exercício intelectual





Gloria Jean Watkins ou simplesmente bell hooks*, é uma intelectual negra norte americana nascida na década de 50. Em seu texto Intelectuais Negras, ela discute sobre a importância do trabalho do intelectual, sobretudo os causadores da desvalorização das intelectuais negras e os seus dilemas.
Com o objetivo de sobreviver a uma infância dolorosa, bell hooks volta-se para o trabalho intelectual acreditando ser ele o instrumento de compreensão da sua realidade e do mundo em volta, como também, uma parte da luta pela libertação e compreende os danos da subordinação sexista na vida intelectual negra norte americana. Para ela, esta subordinação continua a obscurecer e desvalorizar a obra das intelectuais.
A pensadora afirma, que a negação às mulheres a oportunidade de seguir uma vida da mente é atuação do patriarcado capitalista com supremacia branca. Por isso, acredita que só através da resistência efetiva é possível exigir o direito de afirmar uma presença intelectual. Para ela, haverá maior estímulo para que as jovens estudantes escolham caminhos intelectuais quando comunidades negras diversas enfocarem os problemas de gênero e o trabalho de estudiosas for lido e discutido mais amplamente nesses lugares.
Hooks acredita que o trabalho intelectual pode nos ligar a um mundo fora da academia, aprofundar e enriquecer nosso senso de comunidade. E é essa ideia que ela afirma querer compartilhar com as jovens negras temerosas de que o trabalho intelectual nos aliene do mundo “real”.
Portanto, orienta as intelectuais negras comprometidas com práticas insurgentes a reconhecer o apelo para falar abertamente sobre a vida intelectual e sobre o trabalho como forma de ativismo. Pois, segundo ela, quando o trabalho intelectual surge de uma preocupação com a mudança social e política radical, quando esse trabalho é dirigido para as necessidades das pessoas, nos põe numa solidariedade e comunidade maiores e enaltece fundamentalmente a vida.

___________________________________________
*O apelido que ela escolheu para assinar suas obras é uma homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó. O seu texto é assinado com letra minúscula, opção da própria autora.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Mulher madura não é pra qualquer um



Semana passada vi a seguinte notícia no facebook: "Mulheres com instrução maior ficam mais solteiras". Fonte: Jornal Metro Brasil, 12 de janeiro de 2012.
Imediatamente lembrei deste texto do professor Marcos Aurélio Souza¹. Gosto muito desta reflexão e estava esperando um momento devido e a autorização do autor para publicá-la. Recebi a autorização e o momento  de publicar o texto chegou, pois, ele pretende responder sobre o fenômeno da solterisse feminina. O autor não atribui este fato somente ao status educacional que as mulheres estão adquirindo, como propõe a notícia do facebook, mas,  à cautela e um cuidado inteligente de si. Dedico este post à Adriana Barbosa e Luanna Rodrigues. Boa leitura!!!

Perereca pra frente*

"La mujer no es solamente un instrumento de conocimiento, sino el conocimiento mismo,
el conocimiento que no poseeremos nunca, la suma de nuestra definitiva ignorancia:
el misterio supremo". (Ruben Dario)


Há muito estou querendo escrever um texto para (e sobre) as mulheres. E hoje, ouvindo a letra de um famoso pagode muito tocado aqui em Salvador, aproveitei um trecho como mote, criei o título e comecei a escrever. Ainda que muitos desses pagodeiros sejam machistas e só enxerguem a mulher como bunda, vagina, pernas e peitos, há sempre algo que se possa aproveitar. É mesmo possível inverter tudo o que se possa ridicularizar uma mulher nessa cidade, porque simplesmente elas estão "dominando o pedaço".

A despeito de uma pesquisa que foi divulgada, indicando Salvador como a cidade com o maior número de “mulheres sozinhas” do Brasil (tal pesquisa apesar de apontar o número de homens, enfatizava o número das mulheres, como no destaque da Revista Veja: http://veja.abril.com.br/270405/p_126.html) há algo imponentemente feminino nessa cidade, que certamente machos desocupados não se interessariam em pesquisar. É impossível não notar uma presença muito significativa das mulheres onde quer que você vá em Salvador, até em profissões tradicionalmente masculinas, como taxistas, motoristas de ônibus, cobradoras, policiais etc. As “mães solteiras” por opção e não apenas por falta de, e as chefas de casas estão em maior número também.  Isso não resulta apenas da chamada revolução feminina, de uma demanda do mercado ou duma vantagem numérica (como a revista insinua) isso é, sobretudo, uma mudança paradigmática, que nós homens (e também algumas mulheres) precisamos tentar entender e assimilar rapidamente pra não ficar fazendo e falando besteira. Eu acho que  a idéia mais importante na conclusão da pesquisa dirigida pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) não deveria ser "quanto mais a mulher amadurece, menos chances tem de encontrar um parceiro", mas: quanto mais a mulher amadurece, mais criteriosa e esperta ela fica em relação a escolha de um parceiro. E isso não é apenas uma exigência dela, porque estão adquirindo elevado status econômico e educacional e querem isso dos seus parceiros, mas uma estratégia de cautela e um cuidado inteligente de si.

A vida de qualquer homem depende muito e cada vez mais das mulheres aqui em Salvador, e eu aposto ser uma realidade também em outros cantos do mundo. Temos cada vez mais mulheres decidindo a nossa vida, o nosso emprego, a nossa satisfação emocional e material. A solidão das mulheres, no caso das heterossexuais (eu ainda quero saber por que não deram igual importância ao número de homens solitários, e porque ainda não fizeram uma pesquisa com homossexuais) pode significar muitas coisas e talvez seja mais preocupante para os homens heterossexuais, sozinhos ou não, do que para elas mesmas. Há uma possibilidade enorme de que a maioria dos homens simplesmente não desperte o menor interesse como companheiro fixo, ou como companheiro provisório, para a maioria das mulheres (e isso sim é preocupante para nós) elas porque têm uma consciência maior do que a nossa, a respeito daquele clichê: “antes só do que mal acompanhada”. Elas certamente já presenciaram vidas infelizes de mulheres “acompanhadas” em suas próprias famílias, experiências de amigas, colegas, irmãs, tias que sofreram muito com seus parceiros/esposos/namorados violentos, machistas, burros e irresponsáveis. Há também uma necessidade premente de se fazer um recorte racial nessa pesquisa, o que certamente resultaria numa quantidade bem superior de mulheres negras, optando por essa “solidão” do que de mulheres brancas. E isso ainda é reflexo de uma sociedade, onde duas pragas juntas, o racismo e o machismo, contra a mulher são muito mais devastadoras, sendo uma opção segura a de viver só, do que com um companheiro abjeto e repugnante.


É também necessário pensar na possibilidade de que mulheres, nessas circunstâncias, vivam bem a sua sexualidade “solitariamente”, ou até vivam bem sem uma vida sexual (como alguns poucos homens também vivem) e isso não seja exatamente um problema ou tenha algo a ver com a falta de “pretendentes”, ou mesmo com a idéia de uma “solidão” (em nossa cultura machista, sempre relacionada à impotência e a carência femininas). As mulheres estatisticamente também podem estar preferindo uma vida amorosa (no sentido de sexo, inclusive) mais casual, sem compromisso, e isso é provavelmente uma boa forma de vivê-la nesse mundo.

Elas, nesse sentido, certamente estão aprendendo mais com a história do que nós homens. E quando eu ouvia o pagode cuja letra procurava expressar um corpo feminino no gesto sensual de “perereca pra frente, perereca pra trás” (uma daquelas metáforas para o órgão sexual feminino), eu fiquei imaginando um corpo e uma mente femininas que também expressavam: “tudo bem, mas 'sai fora', porque eu não sou pra qualquer um”.

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¹ Marcos Aurélio é Professor de Literatura Brasileira da UESB, campus de Jequié. Doutor pela Universidade Federal da Bahia.

* Acedido no Blog: http://aurelio-souza.zip.net/